Recebi uma proposta de “conversão para PJ” com um valor bruto 30% maior que meu salário CLT. Na hora bateu aquela vontade de aceitar na hora — até eu sentar e somar tudo o que deixaria de existir: 13º, férias com 1/3, FGTS, metade do plano de saúde, aviso prévio em caso de demissão.
Esse tipo de proposta vem crescendo muito no Brasil nos últimos anos. Segundo dados do IBGE, trabalhadores autônomos com CNPJ passaram de 3,3% da força de trabalho em 2012 para 6,5% em 2024 — cerca de 7 milhões de pessoas. Dados do DIEESE e do IPEA vão além: a pejotização (a prática de contratar como PJ alguém que na prática trabalha como empregado) cresceu de 8,5% em 2015 para 14,1% em 2023, um universo estimado em 18 milhões de pessoas.
O que a CLT garante e o PJ não
Antes de comparar valores, é preciso listar o que desaparece na virada para PJ:
- 13º salário e férias com 1/3 constitucional.
- FGTS (8% mensal) e a multa de 40% em caso de desligamento sem justa causa.
- Aviso prévio proporcional ao tempo de casa.
- Estabilidade relativa contra demissão arbitrária (dependendo do caso) e direito a seguro-desemprego.
- Parte do plano de saúde e benefícios que muitas empresas custeiam integralmente só para CLT.
Como fazer a conta direito
O erro mais comum é comparar salário bruto CLT com valor bruto de nota fiscal PJ. O jeito certo é: pegar o valor líquido que a CLT entregaria (depois de INSS e IRRF, mais o valor mensal equivalente do 13º, férias e FGTS diluído em 12 meses) e comparar com o valor líquido do PJ depois dos impostos do regime tributário escolhido (Simples Nacional, Anexo III ou V, dependendo da atividade) e da sua própria contribuição ao INSS como contribuinte individual.
Quando o PJ pode fazer sentido
PJ pode compensar quando: o valor bruto é significativamente maior (não 10-15%, mas o suficiente para cobrir a perda de benefícios e ainda sobrar), você já tem outra fonte de renda ou reserva de emergência, e você tem controle real sobre como presta o serviço — sem horário fixo, sem subordinação direta, sem exclusividade. Se todos esses elementos de autonomia estão ausentes, você provavelmente está diante de pejotização disfarçada, não de uma parceria PJ legítima.
Perguntas frequentes
Quanto a mais o PJ precisa pagar para “empatar” com a CLT? Não existe um número fixo — depende de quantos dependentes você tem, do seu regime tributário como PJ e dos benefícios que a empresa CLT oferece. Por isso vale sempre simular os dois cenários com valores reais, não com regra de bolso.
PJ tem direito a algum benefício previdenciário? Sim, desde que contribua para o INSS como contribuinte individual (normalmente 11% ou 20%, dependendo do regime). Sem contribuição, não há direito a aposentadoria, auxílio-doença ou salário-maternidade no futuro.
Recusar a proposta de virar PJ pode gerar demissão? A empresa pode encerrar o contrato CLT, pagando a rescisão devida, mas não pode forçar a migração para PJ sob ameaça sem essa contrapartida — e mesmo assim, se a relação de trabalho continuar com subordinação e horário fixo, o vínculo empregatício pode ser reconhecido judicialmente independente do contrato formal ser PJ.
Quer comparar o valor líquido real dos dois cenários, com seus números? Use a Calculadora CLT vs PJ do QuickSuite.